Jornalistas, escritores
“Ao contrário da festa profana,de clima quente, é inverno. Comemora-se os santos. Uma colombina desgarrada aproxima-se da fogueira. Na tentiva de aquecer o corpo com a chama, enquanto aquece a alma com pensamentos… Tem na mão,confetes, que atira no fogo como quem envia sinais de fumaça…” – Sonâmbula Insone
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azul [sorriso que eu nunca mais vi]
“talvez porque eu tenha tomado umas grandes doses de uísque há alguns minutos, talvez porque nada faça mais falta que o sorriso.
pode ser que o som de toda saudade que há no mundo faça mais barulho que o caminhão de lixo, que esse whisky que tomo seja o mais amargo de todos os outros – esse que sempre se compara àquelas jurupingas e cervejas, mundos e dragões, à tudo aquilo que não veio -, pode ser que eu esteja errado, enfim. talvez todo o mundo que a gente constrói por aí, alguma vez na vida vira mentira, se torna finalmente algo mais que fábula, algo de cadeia, de tortura, de calabouço; algo que possa sim criar raízes e colocar a gente no chão de vez em quando. enquanto espasmo palavras por aí, a flecha não encontra seu alvo, alvo que sempre se esquivou, que nunca oficializou-se como alvo, que nunca permitiu nada além de um toque breve.
enquanto o mar aberto perde sua beira, finjo que nada acontece. as pedras que me fizeram agora já são areia, a história que me acompanha vira um amontoado de vidro e rancor, as promessas que nunca fiz se escondem debaixo da minha saia e o que sempre persegui se volta pro passado. não é meio dia e nem ficamos mais jovens. tirar os muros das casas deixa a gente acreditar que uma hora a gente encontra alguma coisa do outro lado, esperando, à mercê de tudo, nosso.
troca-se cores.
/mas por favor, uma igual à que eu tinha antes, moço, do mesmo jeito, quase que um genérico. gosto de achar minha antiga cor em tudo.” – Retido
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“Alguns passos à frente e paro. Tento pensar, olho para os lados. Sacudo os bolsos da calça, acho que deixei alguma coisa escapar pelo caminho. Abro a bolsa, confiro bilhete por bilhete, bugiganga por bugiganga: todos os mundos nos fundos da bolsa, e nada. Procuro os óculos de descanso pousados na blusa, que ainda estão ali. Tateio o pescoço procurando o colar que também está ali. Não há saída senão continuar, sigo. Sigo com a sensação de que deixei alguma coisa escapar… Caminho em piloto automático tentando proteger os ombros do vento gelado que batiza São Paulo. Você poderia fechar os meus olhos, ainda assim eu chegaria até o metrô, há alguns metros dali. Escutaria o barulho da eterna sinuca [aquele bar nunca fecha?]. Os ônibus passando ao meu lado, seguem, param, seguem, param. O motorista grita para o vendedor de churrasco – grego [fujo do cheiro], pedindo um, já agitando a nota de um real, assim, rapidinho, rapidinho. O homem corre atravessando a calçada e abrindo um largo sorriso de quem cumpriu sua missão, sua mini-missão. Pega a nota de um real com a mão direita e faz um gesto de vitória com a mão esquerda. O motorista morde uma lasca daquilo que não posso chamar de comida, e dá a partida, ao mesmo tempo em que olha no retrovisor para checar se vem vindo alguém, assim, com facilidade de tudo fazer ao mesmo tempo. Eu também olho no retrovisor da minha memória, para checar o que diabos deixei pra trás. O que deixei cair. Chove um pouco… ” – Mel
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Sem mais diploma obrigatório para ser jornalista
“Ok, admito que odeio assuntos que estão em voga na mídia, principalmente quando não há escapatória deles, como no caso da morte do Michael Jackson. Tirando as piadas, o resto só me deu motivos pra não ir atrás de mais notícias. Assim seria com a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a não obrigatoriedade do diploma para se exercer a profissão de jornalista, se isso não dissesse respeito diretamente a mim.
Eu estudo, ralo na faculdade, gasto boa parte da grana que ganho em função disso, mas nem por isso acho que somente quem estuda tem o direito de exercer a profissão. Não acho que as minhas dificuldades pessoais sejam a base de uma crítica sólida sobre o caso. Sei que esses quesitos são revoltantes, mas não são determinantes (aliás, estão longe de serem) para a situação…” – Fábio
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“[...]Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro.
Sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa.
Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva.
Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começas a falar.
[...]” – Caio F. Abreu
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O último poema
“Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.” – Manuel Bandeira
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Tu tens um medo
“Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.” – Cecília Meireles
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Retrato
“Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?” – Cecília Meireles
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Desejo primeiro
“Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.” – Victor Hugo
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Procura-se um amigo
“Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.” – Vinícius de Morais
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Poema dum funcionário cansado
“A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só” – António Ramos Rosa
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Era o último amor
“Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.
Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?
Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.
Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.” – Luís Filipe Castro Mendes
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“Trinado ao longe.
O rouxinol não sabe
que te consola.” – Jorge Luis Borges
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Nesta curva tão terna e lancinante
“Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.” – Alexandre O’Neill
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Canto para minha morte – Raul Seixas
Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque,
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar Vestida de cetim
Pois em qualquer lugar
Esperas só por mim
E no teu beijo
Provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo
Mas tenho que encontrar
Vem Mas demore a chegar
Eu te detesto e amo
Morte, morte, morte que talvez
Seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte
Uma das tantas coisas que eu nao escolhi na vida
Existem tantas… um acidente de carro
O coração que se recusa a bater no próximo minuto
A anestesia mal-aplicada
A vida mal-vivida
A ferida mal curada
A dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido
Ou até, quem sabe,
O escorregão idiota num dia de sol
A cabeça no meio-fio Ó morte, tu que és tão forte
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres
Me buscar
Que meu corpo seja cremado
E que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos
Na palavra rude que eu disse para alguém
Que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber / Aquela noite…
