23h21 – o motivo

2008 Dezembro 9

Era incapaz de chorar. Não de raiva ou de dor ou de tristeza. Se alguém a magoava, engolia a custo o nó na garganta, fazia-se forte e mudava de rumo – ou dava o troco, antes. Se um homem partisse o seu coração, ou se a ilusão se desmanchasse por si só no ar rarefeito por onde andava, trocava logo a trilha sonora e apostava no futuro. Se a ausência (por conta dos caminhos distintos ou da morte, a senhora soberana) se fizesse presente, bastava guardar, naquele canto sombreado sob o peito, os sentimentos mais íntimos, silenciosamente, assim como a filha guarda no armário os ternos do pai que se foi, num pequeno ritual repleto de reverência. Ela é que sabia de si. E era tanto rio estancado, que as lágrimas acabaram encontrando um caminho. Um bocejo, e a água salgada descia em grossos filetes, abrindo sulcos na face. Histórias sensíveis, desenhos animados, coisas bobas faziam seus olhos marejarem, ardidos. Canções em línguas estrangeiras, cujo significado sequer compreendia, causavam-lhe tamanha comoção que todo o seu corpo tremia, convulso, abandonando-se num choro liberto e misterioso. Na verdade não precisava entender. A letra da música não importava.

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