Os dois estão do lado de fora da casa. Um homem e uma mulher, diante do portão. Observam, através das grades de ferro, o extenso jardim e o caminho de terra que conduz à casa. Seus olhos curiosos tentam descobrir o que foi feito do lugar, tanto tempo depois que eles se foram. São fantasmas. Não dois fantasmas quaisquer, mas Hilda Hilst e José Luis Mora Fuentes.
Morando juntos na Casa do Sol, os dois costumavam se fingir de fantasmas e espiar o lugar por trás do portão, tentando imaginar como seria quando já não estivessem amis ali. Hilda, já então uma grande escritora, expressava sempre o desejo de ver tudo aquilo sempre vivo e cheio de gente, um centro de estudos e de cultura. Agora, cerca de 40 anos depois, estamos no mesmo lugar – Letícia, a fotógrafa, e eu – diante do portão de ferro, tentando imaginar como está o jardim imenso, cercado por um caminho de terra, e a casa. E quem nos recebe – não antes de uma pequena matilha de cães – é o próprio Mora Fuentes.
“náuseas
eu que estou quase morta
da vida e do silêncioescrevo para ser
porque estou e ainda corre
o vermelho da vida”
O lugar é cercado por boatos de que teria sido largado às moscas, e os cachorros, sacrificados. Na verdade, a grande figueira continua ali, dominando o bem cuidado jardim. No interior da casa, móveis e objetos permanecem intocados.
O escritório onde a maior parte das obras foi escrita retém ainda a mesma aparência, e uma biblioteca reúne os livros de autores que influenciaram Hilda e outros sobre temas de seu interesse. Vários cômodos estão sendo arrumados para receber bolsistas. Claro que, depois de tantos anos, as paredes precisam de nova pintura, e há reparos e adaptações a serem feitos. A Casa do Sol vem sofrendo com os cupins, e, embora ainda abrique 36 cachorros, é grande a dificuldade de mantê-los ali.
Por trás de todo esse trabalho está a Instituição Hilda Hilst – Casa do Sol Viva, oficializada em maio de 2005. Entre os sócios, nomes como Nelson Parada (um dos fundadores da Unicamp), a escritora Lygia Fagundes Telles e a atriz Iara Jamra. Mantida por Mora Fuentes e sua mulher, Olga, com o objetivo de divulgar a obra da amiga, ela já promoveu diversas exposições e eventos, como “Hilda Hilst: O vermelho da vida” (18 a 23/4/2006, Sesc Campinas), que englobava mostra de objetos e fotos, laboratório cultural, leitura e teatro.
A amizade entre Mora Fuentes e Hilda Hilst é antiga. Ele tinha apenas 17 anos quando a conheceu, em 1967, graças a um cachorro (o da irmã do rapaz, que procurava um lugar para deixar o animal). E, já no ano seguinte, foi morar na Casa do Sol, de onde sairia apenas em 83, devido ao nascimento de seu filho. Ao lado dela, de Dante e de Olga (sua futura mulher), formou um grupo bastante afinado, cercado de coincidências e pensamentos parecidos – a ponto deles se considerarem como os Beatles.
Mesmo depois de sair da casa, o contato continuava intenso – “dez interurbanos por dia, de horas…” – e, anos mais tarde, com a amiga doente, voltou ao local, a tempo de vê-la partir.
A morte da escritora, em 2004, deixou seus amigos sem ação. Agora, contudo, a instituição que leva o seu nome tem grandes projetos pela frente. O primeiro deles é o lançamento das Oficinas Hilda Hilst, em março, na Casa do Sol. Cursos como pintura, teatro, cinema e, claro, literatura, serão oferecidos ali mesmo e em vários outros pontos da região metropolitana de Campinas.
Em breve deve entrar no ar o site da instituição, com informações atualizadas sobre suas atividades. E um outro projeto prevê a criação do Teatro de Arena Gisele Magalhães no jardim da casa, aproveitando todo o espaço e a vegetação (apenas será construído um tablado redondo, coberto por um toldo de circo em dias de chuva). O espaço deve receber, sobretudo, grupos amadores sem local próprio para pesquisa.
Para tanto, a Casa do Sol luta contra as dificuldades, a ameaça representada pelo IPTU atrasado, e conta com um grande plano de restauração desenhado por Ruy Ohtake, arquiteto de renome no Brasil – que precisa de patrocínio para ser realizado. A intenção de tudo isso, segundo Mora Fuentes, é fazer com que a Casa do Sol volte a ter vida, como nos tempos em que Hilda Hilst morava ali, transformando-se num importante centro de estudos científicos e culturais para toda a população – afinal, esse era o desejo da escritora.
Uma escritora de mente aberta, avançada para o seu tempo, que inventava nomes diferentes para Deus, falava de amor e de morte e, um diz, fez um trato com Fuentes e com Caio Fernando Abreu: quem morresse primeiro voltaria para avisar usando um de seus versos, “o vermelho da vida” (citado em vários textos dela e no trecho acima, “Fluxus”, de Cristiane Grando, que se inspirou na autora). Caio teria cumprido a promessa, ao morrer, recitando os versos, em sonho, para a amiga. E, hoje, de uma forma ou de outra, Mora inclui o mesmo verso em todos os projetos, eventos e exposições que realiza em homenagem à Hilda. Uma forma de reencontrá-la e, talvez, poder lhe mostrar como está a Casa do Sol, como imaginaram um dia, e o que o futuro reserva ao lugar.
Hilda, Mora e a Casa do Sol
Hilda Hilst (Jaú, SP, 21/4/1930 – Campinas, SP, 4/2/2004) é considerada como uma das mais importantes escritoras brasileiras, comparada a Guimarães Rosa e até a James Joyce, em alguns casos. Produziu 35 livros, entre prosa, poesia e teatro. Também foi inspiração para músicas como as escritas por Zeca Baleiro, num CD com dez cantoras cujo projeto ganhou o Prêmio Tim.
José Luis Mora Fuentes é jornalista e escritor. Também já trabalhou com pintura, sobretudo desenho, e foi capista de alguns livros de Hilda. Escreveu três livros, recebeu os prêmios “Governador do Estado de São Paulo” e “Associação Paulista dos Críticos de Arte – APCA”, e agora está escrevendo um roteiro baseado em dois textos da amiga: “Matamoros – da Fantasia” e “Tadeu – da Razão”.
A Casa do Sol, construída pela autora em 1966 na Fazenda São José, de sua mãe, fica em Campinas (R. João Caetano Monteiro, s/n, Quadra B do Residencial Parque Xangrilá).
Contato
www.angelfire.com/ri/casadosol .
Texto: Juliana Leite (publicado na revista Contemporânea de março/abril de 2007) Fotos: Letícia Coca.
