Ron Mueck subverte o significado da escultura com obras que imitam o homem à perfeição
Em proporções exageradamente grandes ou bem menores que o normal, o artista usa os mais diversos elementos para reproduzir a pele, detalhes das unhas, veias, manchas, cabelos e até a saliva na boca
A primeira exposição de Ron Mueck na França, na Fondation Cartier, que terminou há pouco, gerou uma grande repercussão. Durante vários dias, minha caixa de entrada ficou superlotada de e-mails com fotos da exposição. Posts pipocaram até em blogs não voltados para a arte, tão forte a impressão causada pelo artista. Juntando tudo, é quase impossível não querer saber mais a respeito, ou olhar apenas uma vez para as imagens de suas esculturas. Ron ”Muick”, como se pronuncia, é australiano – nasceu em Melbourne, em 1958 - e ingressou há pouco tempo no mundo das artes plásticas (em 1997, seu trabalho foi exposto pela primeira vez em uma das mostras mais polêmicas da história da Arte, a Sensation, na Royal Academy of Arts, em Londres).
Antes de começar a produzir suas esculturas, Mueck fazia bonecos para a televisão (Sesame Street – Vila Sésamo), para a publicidade e até colaborou no filme Labirynth (1986), estrelado por David Bowie. Seu trabalho ilustrou várias campanhas de papel higiênico, desorizadores de ar, bebidas, etc. Tudo isso sem jamais ter tido acesso a uma formação artística acadêmica.
Sua entrada no mundo artístico se deu por acaso. Sua sogra, a pintora portuguesa Paula Rego, precisava de um boneco Pinóquio para uma de suas pinturas (que seria exibida posteriormente na Hayward Gallery), e pediu ao genro que o produzisse. Rego apresentou Mueck a Charles Saatchi, o maior colecionador de arte contemporânea da Inglaterra, que se impressionou com seu trabalho e lhe encomendou algumas obras. Assim, o artista largou o mundo da TV e da publicidade para se dedicar exclusivamente à escultura, e em poucos anos conseguiu reconhecimento internacional.
O trabalho hiper-realista de Mueck pode ser definido como mórbido, forte e infinitamente detalhista. Quando fazia os bonecos para a mídia, não era preciso ter esse cuidado, já que apenas uma parte deles aparecia na tela ou na foto (ele guarda várias dessas ‘obras incabadas’ em sua casa em Londres). Já as suas “obras de arte” são impecáveis vistas de todos os ângulos e são um convite para a contemplação. Mas, além do detalhismo e da perfeição, o que impressiona é a meneira como Mueck “brinca” com a escala; esse é o principal meio pelo qual as esculturas “se expressam”. Como disse o jornalista Jonathan Carter, do jornal britânico The Guardian, “seu trabalho é tal como a vida, mas não do tamanho da vida”. Suas esculturas podem ser gigantes ou pequeninas, o que nos faz sentir diante de algo bizarro, desconcertante, mas perturbadoramente real…
A escultura Dead Dad, de 1996, que ele expôs na Sensation, foi um dos fatores que contribuíram para a sua notoriedade. Ela retrata o corpo nú de seu pai pouco tempo após a morte (que ele não pôde presenciar) e é perfeito em cada ruga e em cada pêlo (é a única obra onde utilizou seu próprio cabelo) mas do tamanho do corpo de uma criança, o que nos dá uma estranha sensação de desamparo. A obra impressionou os críticos de arte. A partir daí, Mueck participou de diversas esposições individuais e coletivas na Inglaterra, Alemanha e Nova Iorque e foi um dos selecionados para expor seu trabalho em outro evento polêmico, o Millenium Dome, em Londres, além de ter participado da 49ª Bienal de Veneza.
Na obra Mask II, se você tentar olhar por dentro da pequena abertura da boca, poderá ver os dentes, a gengiva e até tem a impressão de que a escultura está salivando! E muitas outras esculturas parecem que, a qualquer momento, vão sair dali, andar e falar com você. Mueck optou pela escultura porque acha que a fotografia “destrói a presença do objeto original”.
Quanto ao material utilizado em suas obras, o látex sempre foi o mais presente na criação de uma textura o mais próxima possível da pele e do corpo humano. Mas Mueck queria algo mais duro e mais preciso. Observando um detalhe na arquitetura de uma loja, perguntou à atendente qual era aquele material de aspecto agradável e rosado que tinha sido usado ali. Era resina de fibra de vidro e, desde então, essa tem sido a matéria-prima que serve de base a toda obra sua. Os pêlos e cabelos – naturais, são colocados um por um, e dão a impressão de que estão realmente crescendo.
Mas, mesmo com todas essas descrições do seu trabalho, é preciso estar ao lado de uma de suas esculturas para sentir as provocações contidas na obra de Ron Mueck – sem dúvida um dos grandes nomes da nova geração de artistas.
Texto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em dezembro de 2006). Fotos: Brooklin Museum.

Preciso saber mais sobre o material utilizado nas esculturas de Ron Mueck.