A Murga

 

O momento passou. Outra vez as ruas acidentadas recobrem-se de silêncio, mansa e triste quietude. Somente os passos da gente da terra – trabalhadores, crianças, estudantes, donas de casa – delineiam o ritmo do dia, contam as crônicas de um lugar estigmatizado pela pobreza e pela violência. Em torno, casas de muros altos, mrecearias, armarinhos, açougues, pequenos prédios. Por trás deles, escondem-se milhares de histórias, dramas particulares. E, de cada porta, de cada janela, os olhos desconfiados espiam, mal contendo a curiosidade.

Foi essa a sensação que tomou Lino Rojas de assalto quando pisou naquela região pela primeira vez, tempos atrás. Ainda hoje, é a sensação que domina os corações dos jovens integrantes do Instituto Pombas Urbanas. E, numa calma semana de setembro do ano passado, eles deram àquela multidão de olhos inquietos muito mais do que poderiam sonhar em ver. A murga tomou conta de Cidade Tiradentes, transformando as ruas num imenso e vibrante palco.

“Murga”, essa palavra estranha que parece ter saído de alguma história fantástica, não está em dicionário nenhum. Difícil encontrar quem saiba ao certo de onde surgiu. Mas os atores das ruas de São Paulo a conhecem bem. “Murga” pode ser algo como uma bagunça, um fuzuê agradável. Mas o que eles chamam de “murga”, mesmo, é a tradicional procissão que reúne vários grupos de teatro pelas ruas da cidade.

 

Para entender o significado mais profundo dessa palavra, é preciso assistir à procissão, observar o mínimo detalhe com olhos atentos, como fizeram os moradores de Cidade Tiradentes em 29 de setembro de 2006. É preciso vê-los na “concentração”, juntos, preparando-se. Ouvir o som contagiante que sai de seus instrumentos de percussão, a música que os faz girar num ritmo frenético. Escutar suas palavras, seus gritos de guerra eufóricos. É preciso caminhar com eles, sentir a sua energia, a emoção estampada em todos os rostos. Maquiados, fantasiados, interpretando seus personagens, contando suas histórias, todos ao mesmo tempo. São como um bando enorme de pássaros loucos saindo em revoada, invadindo as lojas, pulando os muros das casas, arrastando crianças e adultos para a brincadeira.

Porque é isso, na verdade. Se, numa apresentação de teatro de rua a roda se abre para contar uma história e tocar os espectadores, ali, com os grupos reunidos, o que acontece é uma grande brincadeira – a celebração da Arte, junto ao público.

Muito mais do que uma festa, o acontecimento serve para escancarar a ideologia desses profissionais, a sua opção de vida – a dedicação integral ao Teatro, mesmo sob pressão da sociedade, dos amigos e da família, mesmo significando dificuldades de ordem financeira, emocional e moral. Com a murga, eles parecem querer gritar para todos que é possível, sim, viver da Arte, se você tiver paixão suficiente.

E gritar essas palavras num país onde a Arte estão tão desvalorizada é, no mínimo, uma audácia invejável. Foi esse o espírito da festa que encerrou a 1ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, juntando todos os grupos participantes numa procissão pelas ruas de Cidade Tiradentes. Cada um deles envergando seus personagens, cada um deles contando suas histórias, todos chamando o público, transformando-o em protagonista daqueles instantes de sonho e encantamento.

 

Texto e fotos: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em outubro de 2006).

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