Histórias que a rua conta – Parte V

Pombas Urbanas – os jagunços de tênis Nike

Os “jagunços de tênis Nike” desceram do ônibus e deram de cara com um galpão em péssimo estado, abandonado há muito, sem telhado nem vidros nas janelas. Tinham recebido de Lino Rojas o apelido, porque quando o conheceram, anos atrás, eram apenas um bando de garotos de 13 anos, descendentes de nordestinos e iludidos pela cultura massificada que a tevê importava de outros lugares.

Loucos por teatro, correram para o projeto do novo amigo – o Semear Asas, cujo objetivo era ensinar essa arte aos jovens da periferia – ainda em São Miguel Paulista. “O projeto começou na rua onde eu morava”, conta o ator Adriano Paes. Naquele ano, 800 pessoas se inscreveram, 100 participaram e, desses, vinte formaram o grupo Pombas Urbanas, do qual Adriano é hoje um dos organizadores.

Sem espaço físico para se apresentar ou mesmo ensaiar, o Pombas Urbanas cresceu com espetáculos nas ruas, nas praças, encenando histórias e personagens típicos do cenário urbano. Mas nunca aceitaram o rótulo de ‘grupo de teatro de rua’; para eles, o teatro é um só, na rua ou no palco italiano. Sua primeira peça, Mingau de Concreto, nasceu com a ajuda de camelôs, prostitutas, mendigos e pastores, para contar os seus dramas. Mais tarde, sobre o palco, a linguagem mudou, o drama se aprofundou, revelando novos traços e sutilezas, e o “Mingau de Concreto”, ainda o mesmo, passou a se chamar Buraco Quente – um sucesso, contratado por todos os Sesc’s e prefeituras do estado de São Paulo, com cachê e mais de 400 apresentações.

Foi no palco italiano, num festival de teatro amador, que eles ganharam prêmios e o esperado reconheciemnto, mesmo sem ter as noções básicas de iluminação, posicionamento, entrada e saída de cena. E, por isso mesmo, decidiram se profissionalizar como grupo. Cresceram, transformaram-se em Instituto e Ong para transmitir a outros a experiência e a paixão que possuíam e buscaram um lugar que servisse de sede. Foi com esse espírito que se viram diante daquele galpão desolado, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, em 2004.

No começo, a comunidade local os encarou com desconfiança. Muitos acharam que era o governo quem estava trazendo o teatro e a arte para aquelas paragens. Logo, contudo, vieram as crianças – tantas que o projeto cirado para os jovens teve de se adaptar a elas – e depois os adolescentes, e os seus pais. O galpão, reformado, virou o Centro de Cultura Arte em Construção. Ele foi erguido e é mantido com o trabalho do Pombas Urbanas – entre apresentações com cachê e assessoria na criação de programas para jovens – mais o auxílio do projeto do Ministério da Cultura, que transformou o lugar num “Ponto de Cultura” (por esse método, o governo dá subsídios financeiros a projetos culturais já em andamento).

O Centro viveu seu pior momento quando Lino Rojas, mestre, amigo e pai de todos, faleceu, fazendo com que as portas do galpão se fechassem. “A gente não sabia o que fazer. Então, um dia, encontramos a mãe de uma aluna e ela nos disse para reabrir o galpão, porque sua filha chorava todos os dias, em casa, por não poder fazer o curso”, relata Adriano. Atendendo ao apelo, o centro foi reaberto, e os projetos multiplicados. Hoje, é um dos mais fortes símbolos de como é possível viver de arte, fazer dela o seu projeto de vida e semeá-la em outras vidas.

No Centro Cultural Arte em Construção, profissionais dão cursos de teatro e outras artes, como o graffitti, além da biblioteca montada com doações. Voluntários oferecem ainda reforço escolar e atividades voltadas para os menores. “O Núcleo Jovem de Teatro, semeado no galpão, tem seus próprios projetos, como a encenação de uma nova peça e um fanzine já aprovado pelo VAI (ação da prefeitura paulistana de incentivo a iniciativas sociais). Todos os fins de semana, o lugar oferece à comunidade apresentações de teatro e exibições de filmes. E o Pombas Urbanas também se prepara para encenar sua nova peça, “Histórias para serem contadas”, inspiradas nas histórias dos próprios moradores de Cidade Tiradentes.

 

Lino Rojas

“Olhar para si mesmo, se perceber… Como o Teatro nos mostra, crescer dói, mas eu acho que dói mais não querer se olhar, se perceber como ser humano e desistir” – Fanzine Inf-Arte, do Núcleo de Teatro Jovem do Instituto Pombas Urbanas. Esta foi talvez a maior lição deixada por Lino Rojas, que mostrou a tantos jovens que é possível, sim, fazer o que querem. E fez do teatro um instrumento para isso – alguns dos que passaram pelo projeto Semear Asas, criado por ele sem São Miguel Paulista em 1989, viraram professores, jornalistas, etc, mas estavam onde desejavam, e graças à arte dos palcos e das ruas.

Lino Rojas, ator e diretor de teatro, veio definitivamente para o Brasil em 1985, fugindo da repressão política de seu país natal, o Peru. Muito antes, porém, já tinha entrado em contato com nomes como Amir Haddad e o grupo de Teatro de Rua União e Olho Vivo. De 1976 a 1986, trabalhou como diretor de teatro na USP, até perceber que era na periferia uqe deveria desenvolver o seu trabalho e se voltar para a Zona Leste de São Paulo, onde cresciam os bolsões de pobreza. Lino deixom mais de dez textos teatrais escritos. Formado pelo INSAD (Instituto Superior de Arte Dramática – Lima, Peru), já estudara com grandes personalidades como Pablo Neruda. Seu trabalho, no entanto, vai muito além disso: basta olhar para a arte e a lição de vida semeada ali, em Cidade Tiradentes.

 

Texto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em outubro de 2006).

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