Histórias que a rua conta – Parte III

Cia Teatral ManiCômicos – Lembranças de Machado

No meio da roda, surgia ora o profeta de praça, ora o médico, ora a prefeita, desfiando um drama que poderia atingir qualquer didade do país. Promessas não cumpridas, ilusões, falcatruas, incompetência médica e má administração pública levaram a uma epidemia que se alastrou sem qualquer controle – isso lembra alguma coisa. A única solução oferecida lembrava, em sua lógica deturpada, “O Alienista”, obra de Machado de Assis, e rendeu cenas hilariantes, como aquela em que os doentes, desesperados, arrastam-se pelo chão na direção dos expectadores implorando ajuda.

Os espectadores, aliás, foram parte ativa da apresentação. Muito mais do que participar de brincadeiras ou auxiliar em algum número, eles agiram como verdadeiros coadjuvantes. Em meio a risos e situações dramáticas, viram-se enredados pela história, e vários deles chegaram a atuar, compenetrados, contaminados pelo clima da cena. Um dos espetáculos que mais tocaram o público e geraram reflexão, na 1ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, em setembro de 2006, “Quando a tempestade nasce das luzes” é de autoria do genial ManiCômicos.

O ManiCômicos surgiu dentro de uma escola. Eram jovens de 15, 16 anos, na fase colegial, cuja paixão pelo teatro permaneceu com eles mesmo depois da conclusão do curso. O grupo, que se estabeleceu na zona sul da cidade, já começou com uma vocação para se apresentar em espaços alternativos – inclusive a rua. “A gente precisou fazer (apresentaçõs) na rua, precisou fazer nas escolas para as comunidades, porque o público estava lá. Achamos que, se estivéssemos no centro da cidade, talvez fosse preciso cobrar ingresso, e as pessoas não iriam assistir”, explica Rafaela Cardim, uma das integrantes da companhia.

“No palco italiano, com a luz, nós quase não vimos o público, ficamos meio sós. Por isso gostamos de rua, também.”

As apresentações nas escolas renderam frutos: o projeto “Arte por toda parte” oferece oficinas e aulas de teatro a crianças de lugares como Cidade Ademar, Santo Amaro e Parelheiros, privilegiando comunidades muito distantes de qualquer espaço cultural. Com a ajuda da Secretaria Municipal de Educação, o projeto cresceu, e já atende mais de 20 instituições. As aulas usam lendas do imaginário popular, histórias de família e outros assuntos para incutir nos meninos e meninas responsabilidade social e noção de identidade, e trazem de volta a eles o mundo infantil do sonho e da fantasia.

Acima, ManiCômicos em festival na Praça do Patriarca

Irmão gêmeo

O ManiCômicos também estende seu braço forte a Minas Gerais. Sediado em São João Del Rey, onde reinaugurou o Espaço Cultural ManiCômicos, o segundo ‘braço’ do grupo também tem um trabalho social com crianças carentes, além de um curso de teatro profissionalizante.

Texto e foto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em outubro de 2006).

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