
Acima, apresentação do grupo Tablado de Arruar
Quem circulou pela Praça do Patriarca, três semanas atrás, vai guardar por um bom tempo na memória as cenas que ali se desenrolaram. De alguma forma, essas cenas transformaram irremediavelmente a sua visão de mundo, ou da cidade, e guiarão muitos dos seus próximos pensamentos. É pouco?
A 1ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, que apresentou uma intensa – e inusitada, para tantos transeuntes desavisados – programação, de 26 a 29/09, das 11h às 17h, pode não ter mudado por completo a rotina de São Paulo ou os seus caminhos. Mas revelou, para pelo menos 8 mil pessoas que engrossaram a roda de teatro, encantadas, como essa arte pode ajudá-las a enxergar, sentir e mudar as suas próprias vidas.
Na verdade, a mostra teve início na Galeria Olido (Av. São João, centro) em 25/09, segunda-feira, com um seminário* sobre políticas públicas voltadas para o Teatro de Rua. É o fruto de uma luta que se estende há vários anos, levada a cabo pelo Movimento de Teatro de Rua e marcada por uma sucessão de eventos – as Overdoses, com um dia de várias apresentações teatrais – realizados ali mesmo, na Praça do Patriarca, sem nenhum tipo de apoio ou patrocínio, como uma forma de afirmar a necessidade do reconhecimento oficial do poder público.
Com a morte de Lino Rojas – maior incentivador do Teatro de Rua em São Paulo – no ano passado, os esforços para a realização da mostra foram redobrados e se delinearam como uma homenagem ao teatrólogo. Representantes de todos os grupos teatrais ligados ao MTR reuniram-se para redigir o edital que foi encaminhado à Secretaria Municipal de Cultura e aprovado este ano. A partir daí, a organização do evento, com escolha dos grupos participantes e das datas, foi realizada em conjunto pela própria SMC, a Cooperativa Paulista de Teatro e o Movimento de Teatro de Rua. Foi dado o primeiro passo na luta pelo reconhecimento.
Mesmo com a parca divulgação, não foram poucos os que chegaram à Praça do Patriarca com a finalidade expressa de assistir aos espetáculos e mudaram toda a sua rotina em função deles. A 1ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas encerrou-se dia 30/09, com um cortejo teatral pelas ruas de Cidade Tiradentes, na Zona Leste, com os grupos participantes do evento, pequenas apresentações e a leitura dos documentos redigidos durante o seminário do primeiro dia. Agora, a expectativa é a de que o evento entre para o calendário de eventos oficiais da cidade e se espalhe pelas outras regiões de São Paulo, levando o Teatro de Rua a muito mais pessoas.
*Política pública
O seminário realizado na segunda-feira, dia 25/09, na Galeria Olido, colocou em pauta uma série de questões ligadas ao Teatro de Rua e pode representar um marco não só na trajetória da classe como também na da arte de rua como um todo, em São Paulo.
Na reunião, estiveram presentes representantes governamentais (Subprefeitura da Sé, Secretaria Municipal de Cultura, Funarte, entre outros), além da Cooperativa Paulista de Teatro. Foram discutidos, entre outros temas, o reconheciemnto do artista na rua, a taxação abusiva e restritiva sobre o uso do espaço público e a censura praticada por alguns parques e outros locais, que escolhem os grupos teatrais a se apresentar ali de acordo com suas próprias conveniências. A inclusão do Teatro de Rua no circuito turístico de São Paulo também foi lembrada. À tarde, formaram-se grupos para discutir as questões levantadas e redigir propostas que deveriam ser encaminhadas à SMC.
“A rua é soberana”
Essa era a frase que andava de boca em boca, à maneira de um mantra, correndo entre os artistas que se aglomeravam na Praça do Patriarca. A rua, com seus ruídos, buzinas de carro, propagandas e jingles gritados nos auto-falantes, e os personagens de todo dia, em meio ao cenário caótico de cartazes, trânsito, prédios maltrapilhos e construções arcaicas, ou modernas. Mas eles estavam errados. “A Arte é soberana”.
No meio da rotina cotidiana do centro da cidade, abriu-se um rasgo de fantasia. À entrada pós-moderna e vazia do Masp Centro, tendas coloridas se ergueram, improvisando camarins e abrigos cenográficos. O palco foi delimitado sobre o chão, com fitas e até com um punhado de terra. E as pessoas, esquecendo-se por alguns momentos de suas obrigações, trabalhos, preocupações, mazelas ou tristezas, aproximaram-se, juntando-se a nós – jornalistas e fotógrafos a documentar cada passo – e aos atores que se preparavam para atuar ou ajudavam os demais em tarefas como a operação da mesa de som e ou a missão de chamar o público para os espetáculos, microfone em punho. Uma pequena multidão formou a roda – os moradores de rua, os camelôs, os trabalhadores, as donas de casa, as crianças levadas pelos pais e os jovens descolados, os desempregados – e seus olhos atentos acompanhavam a cena.
Eles não contemplavam, só. Eles falavam, comentavam, participavam do espetáculo. Ali, a moradora de rua, sentada, respondia a cada intervenção, o rosto transfigurado de alegria infantil. Mais adiante, meninos imitavam os gestos dos artistas. No outro canto, um grupo de rapazes ‘narravam’ cada movimento e inventavam sua própria continuação da história. E, de repente, para todo lado que se olhasse, a cena dentro do círculo feito palco se refletia e multiplicava na platéia, capturada, fazendo reverberar mais forte a energia e o encanto daqueles minutos. Estávamos, todos, comungando a mesma fantástica experiência. Tínhamos nos transformado em personagens de uma história que se desenrolava e se escancarava para a cidade através do teatro, uma arte que, naquela semana, subverteu a (des)ordem das ruas.
“O Teatro é substantivo, não adjetivo (de Rua, do Absurdo, Impressionista)”, disse certa vez, Lino Rojas, um dos maiores incentivadores do Teatro de Rua em São Paulo. Olhos nos olhos, linguagem direta, cativante, sem truques de cena ou sutilezas, interagindo com a platéia e arrastando-a para a história – uma história que, muitas vezes, se ergue ali mesmo, nos calçadões, nas praças, misturando ficção e realidade no mesmo caldeirão. A postura, os movimentos do corpo, a voz do ator, muita coisa muda no teatro realizado na rua. Mas, ainda assim, é o mesmo teatro, aquele que poderia encantar os olhares anônimos em frente ao palco italiano – só que muito mais próximo do seu público.
As raízes do teatro de rua bebem na fonte de folguedos e apresentações circenses, inspiram-se no ‘teatro de estádio’ do Oficina de Zé Celso Martinez Correa – um espaço aberto no meio da cidade, para as grandes multidões, evocando a secular arena onde os primeiros atores gregos se apresentavam, embora restrita às classes mais intelectualizadas – e seguem os passos dos grupos de periferia dos anos 60 e 70, que, alimentados pelo combate à repressão em plena ditadura e sem espaços físicos adequados, foram para as ruas. Nos anos 80, com a abertura democrática, foi a liberdade e a luta contínua por justiça social qe impulsionaram o crescimento dos grupos e definiram o seu caráter engajado, combativo.
Muitos surgiram e cresceram nessa época, e outros tantos entraram em colapso. Hoje, boa parte desses grupos desbravadores aglomeram-se em torno do Movimento de Teatro de Rua, com o objetivo de alcançar o reconhecimento e conquistar políticas públicas que os apóiem – mudança na taxação do uso do espaço público, uma lei de fomento específica para o teatro de rua. Existem, ainda, os que se uniram ao Arte contra a Barbárie, um movimento mais amplo, que abarca o teatro como um todo e as demais expressões artísticas da metrópole na mesma luta por reconhecimento e espaço.
Na própria Praça do Patriarca ou no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, as Overdoses de Teatro de Rua enchem os olhos e as mentes dos transeuntes com um dia inteiro de apresentações sucessivas, com esse objetivo. Eventos como a 1ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas estouram em lugares como Pernambuco, Santa Catarina e Parati, no Rio de Janeiro. Só aqui, na capital paulista, onde a Secretaria Municipal de Cultura ofereceu pela primeira vez o seu apoio oficial à classe, foram mapeados 40 grupos de teatro de rua. Todos os dias, no centro da cidade ou em bairros periféricos, eles transfiguram a rotina urbana e levam suas histórias a quem jamais viu um ator em cena ou mesmo um palhaço no picadeiro. E honram, com isso, uma tradição que vem de tempos muito antigos.
As linguagens são as mais variadas. Números circenses, traços de Bretch aqui e ali, o teatro formal, a farsa, toques de surrealismo. As cenas são as da cidade – mazelas do povo, indiferença da classe mais alta, corrupção e incompetência do governo… e, por vezes, os amores possíveis, as paqueras, as esperanças. Os personagens, velhos conhecidos: bêbados, moradores de rua, desempregados, loucos, camelôs, ‘homens-sanduíche’, donas de casa, trabalhadores, políticos, bandidos.
Na última mostra que ocupou a Praça do Patriarca, eles fizeram parte da história: Galpão do Clã, Cia dos Inventivos, Tablado de Arruar, Abacirco, Cia Vate Katarse, Grupo Manifesta de Arte Cômica, Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo, Mamulengo da Folia, Cia do Miolo, Cia Raso da Catarina, Circo Navegador, Los Patos, Farândola Troupe, IVO 60, Cia do Feijão, Cia Teatral ManiCômicos, Algazarra Teatral, Cia Circo de Trapo, Coletivo Teatral Commune e Buraco D’Oráculo. Nos próximos textos, você vai conhecer alguns deles, suas histórias e a murga – o cortejo teatral que fizeram em Cidade Tiradentes, no emocionante encerramento da festa.
Texto e foto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em outubro de 2006).
