Tempo

Até um tempo atrás, você nem queria saber qual era a balada antes de aceitar o convite em plena terça-feira. Você se gabava de ser o cara mais desencanado, sem preocupação com as horas, o lugar ou a companhia. Tinha coragem pra fazer o que quisesse, ir aonde bem entendesse, e de nunca ligar pras cobranças ou pro que pudessem pensar.

Até um tempo atrás, você dava seu mel a quem quisesse e sempre sabia quando era uma noite só, e quando não precisava esperar nada em troca. Ficava olhando as pessoas metidas a modernosas com seus copos de bebidas e a fumaça do cigarro entremeando conversas preliminares, e achava tão bom perambular por aqueles bares sujos, cheios de uma solidão ‘cool’.

Aquele era o seu mundo marginal, o lugar onde você respirava a vida, assim sem mais – sem qualquer compromisso com coisas, pessoas, emoções, almas – e catava sempre uma idéia pra se inspirar.

Agora não é mais tão fácil. A ‘inspiração’ não vem fácil. A solidão daqueles barzinhos não é mais tão ‘cool’.

Você ainda gosta da rua, do ritmo da noite. Ainda curte aquele tipo de vida, e olhar as pessoas. Mas às vezes elas simplesmente não te dizem mais nada. E às vezes elas são rostos que roubam um pouco do pouco de ilusão que te sobrou.

Aquilo tudo já não te deixa entusiasmado o suficiente, nem te dá a mesma emoção. Agora você acha que pode ter coisas mais importantes pra fazer. Quem sabe você pode trocar a balada por qualquer desculpa e descansar. E se pergunta se teria encontrado algum amigo que queira ver agora, se teria valido a pena passar outra noite em claro e deixar o resto pra depois.

Você fica em casa. E, de repente, se dá conta de que, num momento qualquer entre o tempo de antes e o de agora, alguma coisa ficou pra trás. Você tenta se lembrar e não quer descobrir que, de todos aqueles dias perambulando por aí, olhando e conversando com as pessoas, tudo o que te sobrou foi algo como a fumaça do cigarro, uma coisa assim, inconsistente, fraca. Mas, quando você se olha no espelho, ainda se reconhece. Sabe que ainda é o mesmo, e ainda sabe muito bem o que quer. Só perdeu a coragem.

Aí você escreve. E agora é muito mais difícil, porque não dá pra derramar as palavras no papel, sem pensar, só sentindo o gosto da folha bebendo cada letra. Agora você escreve porque precisa desabafar. Porque quer se mostrar pro mundo e existir. Porque sabe que é covarde demais pra tentar qualquer outra coisa. Você escreve pra tentar se convencer de que toda a sua vida não foi só um amontoado de ‘preliminares’. Mas agora ficou muito tarde. Você já era.

Publicado em: on Maio 27, 2008 at 12:50 am Deixe um comentário
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