Propaganda usa Arte de Rua para atingir o público

Olhe bem para a imagem ao lado. Isso é Arte! Bom, ao menos foi o que disse Andy Warhol no dia em que expôs a famosa lata de sopa Campbell como uma obra artística, provocando emoções como espanto, curiosidade, indignação ou revolta. No meio de toda a polêmica, só uma certeza: depois da Pop Art, a Arte nunca mais seria a mesma.

Filha do Dadaísmo de Marcel Duchamp (aquele dos urinóis feitos “obras-primas”, num movimento que pregava a zombaria e a destruição de toda a ordem e academicismo), a Pop Art nasceu no final da década de 50 como uma crítica irônica à massificação da cultura e aos bens de consumo.

De repente, o que era vulgar tornou-se refinado, libertou a Arte da erudição das galerias e museus e a levou para as massas, através dos seus próprios objetos. E, já que o gosto, valor ou significado dependem do contexto em que se encaixam, o novo movimento esfacelou os limites entre o que é Arte e o que é mero acaso ou ilusão – ou farsa, mesmo.

Se a Pop Art assumiu elementos e ícones da publicidade, televisão, fotografia, cinema e até dos quadrinhos para criticar e apontar para uma “crise artística”, não deixa de ser irônico que, hoje, esses próprios elementos tenham se elevado a conceituadas formas de… Arte?

Neil Gaiman e um time de geniais cartunistas transformaram os quadrinhos em obras profundas, inesquecíveis, dignas de colecionadores. A animação, mesmo, ganhou os computadores, imiscuiu-se no cinema, gerando efeitos inacreditáveis, e tem só para si uma celebração anual com tanto prestígio quanto o Oscar: o AnimaMundi.

As ‘peças’ feitas para a televisão também não escaparam ao “fenômeno” e, cada vez mais, abusam de animações, efeitos de photoshop e outros truques eletrônicos dignos da mais fantasiosa fição científica para deslumbrar os telespectadores. Agora é a publicidade que veste a indumentária da Arte, com traços inovadores e ousados próprios do grafitti. Atacando em outro ‘front’, o grafitti surgia como legítima arte das ruas e, à maneira da Pop Art, também se apropriou de signos populares ou restritos, de forma indiscriminada, para transmitir a sua mensagem. Invadiu galerias e passarelas, brilhou sob os holofotes e, de muro em muro, virou moda nas casas dos “descolados” – a ponto de ganhar críticas furiosas dos mais tradicionalistas, que vêem na súbita ‘fama’ do gênero artístico o esvaziamento dos seus propósitos e ideais.

O grafitti seguiu o exemplo de Warhol e cia (ainda que de forma incidental) e mimetizou a estrutura publicitária de pôsters e lambes para espalhar, em escala massificada, os seus próprios conceitos. Agora é a publicidade que, utilizando “ações de guerrilha” virais, incorporou elementos do grafitti, como o stencil e o spray, para “decorar” muros, paredes e até o asfalto com a divulgação de produtos que vão desde um novo celular até um filme em cartaz – como a obra “Concepção”, cujo logotipo apareceu pichado em vários locais da cidade.

Mais do que uma suposta agressão aos ideiais e à legitimidade da arte de rua, a nova estratégia levanta uma discussão mais profunda: até que ponto os elementos antes marginalizados de que se apropria a publicidade podem ser considerados Arte? Uma bela escultura de areia na praia do Leblon, erguida para divulgar uma academia de ginástica, é Arte? E um ônibus decorado em toda a sua extensão por grafiteiros, com imagens surpreendentes e uma gritante mensagem cultural, a serviço de um site? Muito além do que já foi sonhado ou especulado, meois como o cinema, os quadrinhos e sobretudo a propaganda romperam os limites da Arte.

E, se uma caixa de sabão em pó decoradas com as obras de um expoente brasileiro da Pop Art, Romero Britto, e seu característico entretenimento sem reflexão, não é, em seu propósito, uma legítima obra de arte, ao menos é indício de algo que deve perdurar muito mais do que os quinze minutos profetizados por Andy Warhol.

Texto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em julho de 2006).

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