“… Fog de pensamentos dos homens escapando pelos respiradores do metrô, e cartas de amor como escorrem pelos bueiros dizendo “espero que você me entenda”, e de banhos de sol refletidos nas poças de água que a chuva deixou”.
Seres amargos ou filósofos, pessoas comuns erguem-se das sombras imundas por onde vagam, esquecidas, e ganham força no traçado forte e denso, no jogo de luz e escuridão, nos enquadramentos que remetem ao expressionismo alemão – sequências sem balão de fala, trazendo à baila a expressão e os sentimentos dos personagens. Paisagens tristes de concreto e chuva, de becos e paraísos destruídos, delineando-se na técnica peculiar do Eisenshpritz.

Ainda agora, esses anti-heróis vivendo suas vidas pequenas dentro de edifícios imaginários povoam a memória. Uma memória velada pelos sonhos – ou pesadelos? – de Lorde Morpheus, o onipresente e aterrador Sandman. Mera história em quadrinhos? Arte? Olhando na superfície, parece não haver muito propósito para a pergunta, nesses dias que seguem. Mas já houve um tempo em que a discussão era acirrada.
Dos gibis para as telas, uma legião de seres fantásticos e seus dramas
“Você só tem te lutar para viver mais um dia, eu tenho de saber por quê”, disse Jacob à barata que o perseguia, no ambiente sujo e sombrio onde se encontrava. Na Europa dos anos 60, as HQs já possuíam status suficiente para merecer um lugar na estante. Em contrapartida, nos Estados Unidos, os quadrinhos ainda eram considerados como uma forma barata e descartável de entretenimento infanto-juvenil. Seria a “morte certa” num tempo de decadência, não fosse a invenção da Graphic Novel, engendrada na obra “Contrato com Deus” por aquele que se tornaria o maior quadrinista norte-americano, merecedor de um prêmio com seu nome para a categoria – Will Eisner.
Bem mais do que quadros desenhados em sequência para contar uma história, suas obras refletiam a influência do expressionismo alemão e de antigos livros xilogravurados. Seus temas não eram os dos super-heróis, na eterna luta entre o Bem e o Mal, mas a vida de pessoas comuns, com seus sonhos, desilusões e fracassos. A obra de Eisner destacou-se das demais como Graphic Novel, um livro em formato de quadrinhos, com enredos longos e complexos.
Depois de Spirit, o detetive que combatia o crime enquanto derramava humor, ironia e angústia por todas as páginas, Avenida Dropsie rendeu alguns dos mais belos e angustiantes momentos da Graphic Novel, contando a história da vizinhança de uma rua perdida em Nova Iorque – a obra ainda mereceria, em 2005, montagem teatral de sucesso no Teatro Popular do Sesi, por Pedro Hirsch, com a Sutil Companhia de Teatro.
Eisner influenciou uma série de outros autores do gênero. Mais ou menos no mesmo período, Robert Crumb se tornaria o “papa da cultura underground” dos quadrinhos. Mesmo assim, esses ainda eram considerados integrantes de um fenômeno à parte das HQs tradicionais. Foram Frank Miller e Alan Moore que jogaram os super-heróis dentro desse universo, levando-os ao limite dos temas adultos e publicando histórias em série, ao estilo dos folhetins, dignas da busca apaixonada dos colecionadores.
A indústria das HQs, a partir da década de 80, viveu a sua segunda Era de Ouro, com publicações onde, muitas vezes, o nome do autor valia tanto ou mais que os títulos, tornando-o um tipo de ‘popstar’. Para muitos críticos e ensaístas, contudo, ainda se tratava somente de uma febre de consumo, apoiada na mitificação dos personagens – e até dos autores – e não como o reconhecimento de um novo tipo de arte.
Quando Sandman ressurgiu pelas mãos de Neil Gaiman, na virada dos anos 80 para os 90, encontrou um terreno fértil para engendrar seus sonhos e enredar uma legião de fãs adultos mundo afora. As histórias densas, repletas de referências históricas e citações a autores, e reveladas em sequências de traços e ainda suas estruturas extraordinárias, colocaram as HQs no topo do panteão da Arte Seqüencial. Impossível, mesmo, olhar para uma das capas do Senhor dos Sonhos e não reconhecê-la como uma verdadeira obra de arte.
Já o Brasil exibe ainda uma resistência velada ao reconhecimento da “arte seqüencial”. Os quadrinistas, aqui, carecem de estrutura, apoio e reconhecimento – fatores que acabam encontrando em terras estrangeiras. Chamar de quadrinista alguém como Galvão, com seus traços impressionantes, originais, que se revelam não somente nas tiras repletas de ironia, humor e significados mais profundos, como também nas pinturas exuberantes, entre outras atividades, parece muito pouco. A saída, ele mesmo aponta: “A dificuldade é batalhar mais espaço pros quadrinhos, tirinhas. O Brasil é celeiro de quadrinistas maravilhosos e a disputa pelo pouco espaço na mídia é meio pesada, mesmo. Tem muita editora nova surgindo, sites e mais sites de desenhistas… E o grande segredo é não esperar nada de grandes veículos”.
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Texto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em abril de 2006).
