Hoje, depois de um inacabável inverno
O sol voltou a atravessar as janelas
Aquecendo os móveis
E o ar nos pulmões
De repente
Como que desencantado
O tempo tornou a movimentar todas as coisas
Girando na eterna dança
Hoje, depois de tantos dias em delírio
A febre cedeu
Devolvendo meu corpo
E meus sentidos
Pulso outra vez
Inteira
Veias, artérias, sangue e vibração
Ainda é Junho
Ainda há uma fogueira de São João
Queimando nalgum lugar
E nos meus lábios
Explode a cantiga inesgotável, irreparável
Escrita para mim um dia
Para embalar meu bailado vida afora
E contar minha história
Tenho braços sedentos de abraços
Tenho pernas ansiosas de mundo
Vou me jogar nesta noite
Vou correr pela terra com pés ligeiros
Tenho atrevimento
Ousarei ser o vento
Varrendo a poeira
Bagunçando o tédio
Incitando o fogo
Vou pular e voar mais alto
Ardendo não de agonia
Mas de paixão
Quero viver tudo agora
Sentir tudo agora
Seguir balões entre estrelas
Acreditar em simpatias tolas
E rezar a todos os santos
Que te façam mais corajoso
E mais crente do meu coração aberto
Porque não quero
Ter que te odiar de novo
Por me fazer acreditar que me queria
Por me fazer esperar
Sem me dar respostas ou pistas
Nem deixar ver seu rosto
Ouvir sua voz
Não quero te odiar outra vez
Por não ter coragem
De me conquistar
Mas, sobretudo
Não quero te odiar
Por me fazer olhar meu reflexo no espelho
E ver a imagem de alguém
Que não conseguiu fazer o que queria
Dizer o que devia
Para ter a chance
De ter um momento a seu lado
Alguém que esperou tempo demais
Antes que se apague nos olhos
O calor da fogueira
Vou pedir a todo santo que me ajude a
Encontrar um caminho até suas mãos
E vou assobiar alto, enquanto isso,
A canção – seja mesmo ela inesgotável,
Irreparável
Até você me escutar
Ou a festa de junho acabar
Junho
O URI para Trackback deste artigo é: http://jornaldepoeta.wordpress.com/2008/05/22/junho/trackback/
