Difícil descrever o que talvez esse homem tenha sentido quando parou diante do casarão, há cerca de quatro anos. Para ele, contemplar mais uma vez as paredes desgastadas, os contornos de cada quina, as portas e janelas ausentes, trouxe à tona algo muito mais profundo, familiar.
Paulo Goya, 51, nasceu no Casarão do Belvedere – na verdade um conjunto com a casa principalum anexo (onde ele veio ao mundo) e uma edícula, logo atrás – e ali foi criado. Foi o seu bisavô, que já estava no Brasil com a família em 1895, quem construiu todo o lugar, 32 anos mais tarde. Foi a avó quem tomou suas lições, na época da escola. “O escritório onde trabalho hoje foi o quarto onde estudei na minha infância”, ele conta.
Ali sua vida sofreu as reviravoltas da história. Presenciou o início dos anos de chumbo, em 1968, se engajou no teatro com o grupo Meca (braço do Colégio Aplicação, da USP) em plena clandestinidade, atraiu a atenção de Zé Celso Martinez e foi embora para a França, estudar teatro e letras. Aprendeu francês, virou ator shakespeariano e passou a viver – bem – do seu trabalho. Mas descobriu que não era mais o que queria. Dezoito anos mais tarde, convidado a participar de um projeto em Campinas (graças a uma entrevista que concedera ao programa Metrópolis, da TV Cultura), voltou ao Brasil.
Parado em solo nacional, com o projeto abortado e falta de perspectivas, virou locutor de programas de rádio e da TV Cultura (Grandes Cursos) Também passou a ministrar aulas de línguas e fazer traduções. Mais uma vez atendendo a um convite, acabou participando do programa Sandy&Júnior, na TV Globo, como um dos professores. E durante todo esse tempo, entre 1990 e 2003, tentou voltar para o teatro, sem sucesso.
“Não tinha um trabalho de pesquisa, uma proposta, não tinha nenhuma vontade de fazer essas peças”, diz. Foi nesse período conturbado de desilusão com o teatro brasileiro que sua vida sofreu mais uma reviravolta, empurrando-o de volta para o portão da frente do Casarão do Belvedere. A construção estava para ser demolida, quando foi tombada pelo patrimônio histórico, em virtude se seu papel como última casa em alvenaria burguesa do bairro. “Para mim é um prêmio que me deram. Um prêmio meio terrível”, diz Goya. Não havia mais como vender o terreno, e restaurar todo o lugar traria gastos impensáveis. O que fazer, então, com um casarão quase abandonado? Tranformá-lo, claro, num espaço cultural.
Por algum desses estranhos reveses do destino, o teatro voltava para a vida de Paulo. Se dizem que as melhores coisas acontecem de repente e por acaso, ele é o maior símbolo dessa verdade. Foi assim, num lance do acaso, quando estava na casa de um amigo conversando sobre o casarão, que conheceu Newton Moreno – que trouxe direto de Pernambuco para a velha casa do Bixiga as “Assombrações do Recife Velho” (26 de agosto de 2005).
Sucesso de crítica e de público, incrível exposição na mídia de uma casa antes relegada à demolição, início de um grande projeto… Hoje, com a ajuda – irrisória – da Lei de Fomento ao Teatro, Goya prepara o casarão para vôos mais altos. Já transformou a edícula em camarim com banheiro para visitantes, fez uma escada em espiral que serve de arquibancada, construiu portas e janelas.
Só na base do boca a boca, reuniu em torno de si grupos de teatro profissionais, que se apresentam durante a semana, e amadores, com sessões especiais aos sábados. Sem contar as aulas de teatro já ministradas ali, com sucesso, pelo grupo TEARTE, de Auan Perez.
E o homem ainda alimenta o sonho de instalar, no prédio novo que deve construir ao lado do casarão (reservado para exposição permanente de acervo da família e de obras de arte, além da ala de informática), sala de cinema, de espetáculo, espaço para ensaios, laboratório fotográfico… O Espaço Cultural Dona Julieta Sohn (avó de Paulo) começa a ganhar vida.
“As pessoas do bairro passam e ficam felizes de ver público aqui. Isso pra mim é que é teatro”, diz Goya, orgulhoso. E, com um brilho nos olhos que tranfigura e irradia toda a sua face, completa: “o Casarão é uma resposta a toda a minha vida, todo o meu percurso”. Resposta não só à vida dele, mas à de muita gente.
Texto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em março de 2006).
