A Arte vive e morre na Praça da República

A Arte morreu. A frase, invocada por Hegel e Andy Warhol em diferentes épocas e por diferentes razões é o que vem à mente, no momento em que confronta a paisagem um tanto desolada da Praça da República, onde está localizada uma das mais tradicionais feiras de arte e artesanato da cidade de São Paulo.

Bem diferente do cenário que destacou o local como um dos mais importantes pontos de encontro de artistas plásticos do circuito alternativo de São Paulo, há cerca de 40 anos, a feira de Arte, hoje, é que parece morta, na visão de alguns profissionais da área.

Hoje, o público frequentador da feira busca apenas artigos de decoração para a casa ou maneiras de esconder imperfeições à mostra nas paredes. São consumidores que vagam entre obras expressionistas, abstratas e paisagens acadêmicas no estilo do século XIX sem a mínima noção do valor dos trabalhos expostos, preocupados em economizar ou encontrar a peça do tamanho exato para o corredor da sala.

Sem divulgação, incentivo oficial do governo ou qualquer tentativa de união entre os profissionais da praça para reverter o quadro de abandono estabelecido, não restaram turistas, celebridades ou intelectuais que visitem a feira, como costumava ser.

Além disso, a mera continuidade de uma arte do passado, apenas reproduzida em suas técnicas com maior ou menor grau de habilidade, dependendo do pintor, deu ao lugar uma fama indesejada e pejorativa. A situação chegou a tal ponto que os frequentadores de galerias, quando observam uma obra malfeita nesses “espaços de erudição”, disparam pérolas como “parece arte da Praça da República”.

Sinal claro da atmosfera que envolveu toda uma gama de profissionais que “pararam no tempo” e continuam a reverenciar antigos valores estéticos, apartando-os de qualquer possível originalidade ali encerrada – matando a Arte, portanto, em sua função primordial de ser inovadora, instigante e reveladora.

Entre paisagens, naturezas mortas, figurativos e abstratos onde se revela a falta de qualquer preocupação com um estudo, um projeto, a motivação principal é a de agradar aos possíveis clientes. Esses, por sua vez, são indivíduos cujo gosto foi nivelado por baixo pela falta de cultura e de meios materiais ou financeiros. Eles ditam as regras perante artistas dotados de poucos recursos, que fazem do comércio de quadros o seu meio de subsistência. E assim a Arte, institucionalizada nos museus e galerias, banalizada pelo comércio barato, encontrou a sua morte, apontada por Warhol (veja o box no final da matéria).

Haverá uma redenção para a Arte na Praça da República? A mesma vanguarda que, nos anos 20 e 30, acabou com os gêneros artísticos, mudando o foco da matéria (o que é feito) para a forma (como é feito, e por quê) e para a própria arte, deixou, no final, uma cultura modernista individual, responsável por gerar uma infinidade de estilos pessoais, à margem de possíveis movimentos artísticos. E, numa constante transformação, tais estilos interagem com seus interlocutores, dialogam com eles, refletem sobre si mesmos e fazem refletir.

O outro lado da moeda

Essa Arte também existe na Praça da República, por mais que a feira pareça frágil diante da crise dominante na cultura brasileira, aos olhos de alguns profissionais. Segundo o artista plástico Carlos José Gama, muitos dos trabalhos expostos no lugar são feitos com alma, melhor dos que os encontrados nas galerias. Selma Aparecida, outra expositora, acrescenta que “ainda tem uns (artistas de fato) perdidos por aqui”. Pois as obras desses ‘perdidos’ revelam muito mais do que beleza: revelam uma intenção, um propósito do artista, uma indagação.

A Arte, hoje, fala – e se espalha por cada curva da Praça da República, em experimentações que remetem às mais diversas influências, gerando novas técnicas, criações únicas e por vezes difíceis de classificar. É possível encontrar desde colagens com madeira combinadas em paisagens minuciosas, superposições dos mais inusitados materiais, abstratos mais próximos do figurativo, obras ultra-coloridas ou hiperrealistas até um surrealismo que mistura Salvador Dalí com influências nacionais como Tarsila do Amaral, além da transposição da pintura para outros tipos de telas.

Para Shidon – que não se considera um artista por não ter feito faculdade, mas há 14 anos decidiu assumir de vez a veia artística e se tornou pintor na Praça da República – “toda arte é um incômodo”. E, quando cria um quadro, procura se utilizar de elementos que levem reflexão, prazer ou inquietação às pessoas.

Inquietação, talvez, um tanto diferente da que aflige os profissionais que têm de viver com a falta de perspectiva dentro de uma feira de artes e artesanato como a da Praça da República, imaginando quando vai ser o momento de ganhar as ruas, a exemplo de outros tantos bons artistas que fizeram história, ali, um dia.

A morte da Arte

1 – Para Hegel, a apreciação da arte do passado é uma atividade desvinculdada da originalidade donde proveio. A perda desse elo fundamental representa, assim, a impossibilidade de fruição fervorosa, religiosa, da obra do passado, por este motivo superada, morta.

Ao mesmo tempo, a arte morreu e não morreu. A arte que no Romantismo do século XIX começa a dar indícios de esgotamento, de fato desapareceu enquanto estatuto de novidade. Mas, em seguida, abriria-se para uma nova forma, mais elevada: a da Arte que se faz objeto de reflexão.

2 – Um dos fatores que impulsionou Andy Warhol, o “papa” da Pop Art, a revolucionar o modo como as pessoas interagem com as obras expostas em museus e galerias foi justamente a banalização de uma arte antiga, exposta à mera observação indiferente dos visitantes, e o seu comércio. Para ele, a Arte deveria estar mais próxima do público, falar com ele e fazê-lo pensar.

Texto: Juliana Leite (publicado no Jornal da Praça in Revista em fevereiro de 2006).

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