Sombra

Sou falsa, fria, estéril, lisérgica, estúpida e sem direito a nada. Que espécie de ser humano encara a morte com olhos límpidos, indiferentes? Murmura, autômata, quando necessário, a ladainha barata, indigna do mais vil poeta. Contempla o corpo inerte de quem a levou pela mão, tanto tempo, e apenas diz adeus em silêncio, sem o menor vestígio de emoção, ou dor…

Que dor? As lágrimas queimando o peito em segredo, súbito mal-estar que faz estremecer a carne? Mas o tempo todo sobrepõem-se as lembranças de muitos outros dias e passeios de braços dados. O cheiro do pão quente. Pequenas regalias, vontades satisfeitas. Segredos e cumplicidade. Orgulho bobo de caminhar junto a um personagem reconhecido, cumprimentado e admirado. E as velhas histórias, decoradas de tão repetidas. Arengas, manias… As valsas e marchas militares, alegres, de um passado quase irreal.

Como a sua figura, agora estática – só corpo. E enquanto meus olhos fugidios, esquivos, nela passeiam, a cada mínimo detalhe rememorado, descascam-se pedaços de cor e de pele, novas camadas – uma a uma – dessa máscara sombria e infeliz que escolhi. E me revelo no espelho que habita dentro de mim, nua, insignificante, pequena. Tão pequena quanto maior se faz a sombra desse gigante que soube viver, que soube se dar. Brigou quando precisou brigar. Amou quando quis amar. Pediu perdão e perdoou no momento exato. Cumpriu todo o dever e foi tudo o que podia ser.

Muito, muito mais do que essa pobre, patética figura agora parada a seu lado, sem a ousadia de sorrir com suas memórias perante os outros, sem a coragem de chorar toda essa angústia e pedir colo aos outros. Sem a força pra lhe falar, nem mesmo nesse instante, quanto gostei da sua companhia, do som dos seus passos arrastados, do jeito como teimava, das idéias enganadas e cômicas, do som da sua voz me chamando a atenção… Uma voz que nunca mais irei ouvir, nem poder replicar.

Publicado em: on Novembro 15, 2007 at 7:30 pm Deixe um comentário
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