Minhas palavras ainda ecoam por estas paredes
Tão claras, tão nítidas
Que reverberam agora como inatingível melodia
Muito além da história contada
E há por toda parte, no ar
Um fragor, um frêmito intermitente
Adivinhando movimentos que se esgueiram
Na pedra fria e vazia deste chão, deste momento
E agitam a poeira do passado adormecido
Com um desenho de traços desconhecidos
Só por vezes, de relance, adivinhados
Muito além dos gestos já desfeitos
Na penumbra
Depois de todo o abandono
Vozes impossíveis continuam a ditar os versos
De uma poesia em momento algum criada
Que escorre por todas as frestas
E cresce a cada instante
Preenchendo o salão inteiro
Meus passos já andaram pelos grandes corredores
Um dia iluminados
Desceram por entre as pilastras
Em meio às sombras e os segredos
Cortaram labirintos, aqueles sinuosos labirintos
Que ficaram fechados, já ao longe
E chegaram a este profundo salão
Outrora repleto de dança, de máscaras, de fantasia
De encantada, abençoada maldição
E aqui meus passos estacaram
Enredado no coração que se afundava
No giro inevitável
No fim
A agradável farsa do tempo
Cobriu cada móvel e cada memória
Com o manto estagnado da solidão
Do esquecimento
Nesse momento
Mãos invisíveis rabiscaram
Os versos redivivos
Entrelaçando-se em teias
Conjurando uma presença que pulsa e lateja
E amedronta os que ainda não vivem
E envolve os outros, ainda
No giro inevitável
Perpétuo
Gravado nestas paredes
Que apenas o sobrenatural
Ilumina agora
Os outros
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