Jornalistas x Escritores
"Enfim, temos escritores que foram jornalistas e jornalistas que são escritores. Mas em geral a profissão de jornalista mata o escritor. Já o inverso não acontece." - Cláudio Abramo
"O jornal deveria ter menos tabelas e mais romances." - Marcelo Coelho
"Jornalistas são escritores." - Gay Talese
E era tanta estrela, tanta palavra latejando de luz, tanta pirotecnica de fábula, que ela se inflamou inteira, desencontrada, e foi arder entre os astros.
*Segundas-feiras
She spent the night trying to tie stars in the branches of trees.
*2º domingo do mês
Tinha certeza de já ter escutado aquilo antes. Não como num déja vu, era mais como se as palavras que se desenrolavam languidamente em seus ouvidos sempre tivessem feito parte dela, a vida inteira, só esperando… Não sabia mais se estava triste ou alegre, apenas o coração palpitava, muito forte. Vestiu-se com o perfume doce reservado para certas ocasiões, abriu a porta e caminhou decidida, os passos desenhando um caminho aparentemente estudado. Desconhecia aquelas expressões nos rostos da gente ao redor, a perplexidade e a ânsia com que se movimentavam. Caminhava alheia a todo o resto, a respiração presa num sustenido. Sentou-se à mesa, diante dele, a coragem de um temerário chispando nos olhos. Entregou-lhe o passaporte, dizendo que não tomaria o rumo definido e acendeu um cigarro. E, com o gesto mais charmoso, estendeu-lhe o braço para dançar.
Vanessa Mae – Bolero for violin and orchestra
*Sábados
Não estava apaixonada, só pensava nele porque dava-lhe paz – como se, em pleno carnaval, entrasse na igreja para fugir da folia das ruas.
*Sextas-feiras
Foi uma caminhada de cinco quarteirões – cinco quarteirões, apenas, até a casa da amiga que não via desde os tempos de ginásio, e que agora achava-se idosa e doente. Mas, quando a encontrou, ela sorriu daquele mesmo jeito. Foi a viagem mais curta que fez na vida, e a mais importante. E a mais feliz.
*1ª quinta-feira do mês
O mormaço que atrasa os ponteiros, e empresta a todos os meus movimentos um ritmo assim malemolente. A língua desenrolando vagarosamente as sílabas, numa torrente mansa e líquida. O céu infernalmente azul salpicando de estrelas mortas – mas tão faiscantes! – os seus olhos, de onde desvio para não perder a hora, e o trem, e…
*1ª quarta-feira do mês
Tinha o rosto franzino e ansioso, uma carranca de quem já apanhou muito nessa vida. Magro, mas com aquela barriga de cerveja, coberta por uma camisa mal ajambrada. Recebia a passagem e dava o troco sem olhar nos olhos dos passageiros. Durante alguns minutos, o ônibus cruzou ruas vazias, sem ponto onde alguém o aguardasse. E, enquanto o veículo deslizava, entrecortando raios de sol, ele de repente começou a cantar um hino evangélico, música que contava a sua história, a sua fé. E a voz, magicamente, já não era dominada por aquele timbre áspero com que respondia ao motorista, vez por outra. Era a voz que transportava todos nós, que o assístiamos, por um caminho muito mais alto do que o que tencionávamos seguir.
*Terças-feiras
É com assombro que te leio e olho pela janela aberta a noite que vem chegando com o cortejo dos grilos. Uma nódoa de infância quer insinuar-se nos matizes cada vez mais escuros que adormecem o céu, mas nada pode ser como era, depois das tuas palavras ditas assim, bem dentro dos meus ouvidos.
*Segundas-feiras
As bruxas não são nada – demodês, no máximo. O que assusta, mesmo, é o riso largo que ostentam as abóboras vazias, ocas. Um riso de quem já não possui nada.
*1º domingo do mês
Hoje é só isso, meu bem. Vou me pintar, me divertir, rodar pelo salão, representar o meu papel. Vou ficar no modo “pause” até amanhã, quando a gente se ver de novo.
*Sábados
