Jornalistas x Escritores
"Enfim, temos escritores que foram jornalistas e jornalistas que são escritores. Mas em geral a profissão de jornalista mata o escritor. Já o inverso não acontece." - Cláudio Abramo
"O jornal deveria ter menos tabelas e mais romances." - Marcelo Coelho
"Jornalistas são escritores." - Gay Talese
Nem sequer olhava para as pessoas na rua, porque não suportaria olhar o mundo através dos olhos delas – olhos tristes, sempre perdidos em suas próprias órbitas. Nas horas vagas, procurava músicas com as quais pudesse desabafar, sons que fizessem explodir seus tímpanos, histórias que arrancassem a fórceps aquela covardia plantada bem no seu peito. Buscava qualquer coisa, qualquer pista que permitisse acreditar que estava no lugar certo. Mas não era o lugar certo, sabia disso. Nada ali estava certo. E cada vez mais convencia-se de que deveria morar numa das pinturas de Van Gogh. Um lugar assim, descrito por Lewis Carroll, onde seria não Alice, mas a Rainha de Copas, ordenando todos os dias, com o mais louco dos prazeres, que cortassem a sua cabeça.
Duda Groisman / Foto Repórter / AE
Era a vastidão azul, vibrante, morna. A brisa pacata, os primeiros apitos do carnaval, o sorriso fácil e à toa. Mas, ali no reflexo, alheia a qualquer alegria, ainda erguia-se a carcaça remendada de sombras, flutuando, familiar como um antigo sonho mau - uma lembrança, ou um alerta.
Eu conheci pessoas assim: pessoas que enlouqueceram por causa da solidão, e pessoas cuja loucura as tornaram solitárias. E se, no caso delas, você trocasse a palavra “loucura” por “genialidade” ou mesmo “paixão”, vai ver que não faria muita diferença.
Costumava gostar das tardes de solidão, quando, no silêncio, podia finalmente escutar o som dos raios e trovões…
Só precisava de mais uma palavra, e então poderia destruir o texto. Mas, no momento preciso, um maldito bloqueio criativo o impediu.
Lá fora é a chuva, infinita, triste… A maré retomando seu fluxo, abrindo veias e sulcos no rosto antigo da cidade. Mas, por trás das vidraças, são outros os rostos que envelhecem, na sua prisão de água.
Deixei de lembrar dele há vários dias. Não porque não me importe mais. Simplesmente aconteceu, quase sem que eu me desse conta. As ideias quase obsessivas, as fantasias em torno de encontros cinematográficos, tudo isso acabou de repente, do mesmo jeito como tinha começado. Será que significa que ele não mexia tanto comigo como cheguei a pensar? Será que a minha atração por ele não era assim um incêndio? Talvez eu tenha querido acreditar que sim, talvez eu tenha me esforçado demais, não para gostar dele, porque isso é fácil, mas para me sentir apaixonada, para ficar sem chão, sem racionalizar, só desejando. E com ele era um fogo brando, um carinho, uma afinidade, uma compreensão, um querer estar junto. Soa terrível, não é? Ou apenas triste, talvez. Porque no momento estou meio cansada de me sentir oca, vazia, e queria aquelas sensações todas. E queria que tivesse acontecido com ele, queria que fosse ele. Mas não era (ou pelo menos ainda não é) e então parei de me preocupar. Troquei aquela ansiedade do começo pela certeza. A certeza de que um dia a gente vai poder se reencontrar. A certeza de que eu vou poder sentar frente a frente com ele, olhar nos seus olhos e falar, de uma forma serena e ponderada, que não o machuque além do necessário nem me magoe demais, tudo o que ficou por ser dito. A certeza de que, se as minhas palavras forem suficientes para ele não conseguir mais me encarar, é porque não era para ser. A certeza de que a sorte já está lançada, e se não for ele o homem que vai aceitar o desafio de me provocar paixão, vai ser outro, algum outro dia. Não importa o que eu tenha feito ou, principalmente, o que tenha deixado de fazer. Isso é individualismo, egoísmo? Às vezes penso que sim, e que sou a pessoa mais egoísta do planeta. Ou então estou me defendendo (de quem? para quê?), o que acaba dando na mesma. Na verdade, não adianta só querer. Sei que é o maior clichê do planeta, mas, embora a gente possa escolher muitas coisas, “essas” coisas a gente não escolhe. O bom dessa história toda é que pelo menos eu destranquei a porta, agora. Acho até que já joguei a chave fora. E olha aí, outro clichê! No fundo, tudo se resume ao clichê.
Só o que restou dela foi o retrato que lhe fizeram, uma pintura pretensamente impressionista, turva na memória líquida dos olhos - e um cheiro que vinha talvez das pedras que tinha pisado, ou da tinta descascando, ou das janelas que povoavam os becos e os seus sonhos. Não tinha deixado marca alguma que perdurasse contra o tempo, contra o sol.
É só um jogo. Não tem que se preocupar em ganhar (até porque você vai perder sempre, embora ainda não suspeite disso). Não precisa nem conhecer as regras, elas servem só para dar uma aparência de ordem onde não existe ordem alguma. Pode lançar os dados, ou a bola, ou o dardo, ou você mesmo. A forma, tanto faz. Basta começar. Você arrisca a sua sorte, os seus limites, o seu corpo, as suas certezas, e pronto. Você já deu o primeiro passo em falso na minha direção. Do resto eu me encarrego. Vitórias, troféus, orgulho, mais desafios, o que puder sonhar. Depois, lá vem outro passo em falso. Você nem vai reparar. Mas vai gostar da sensação - o que acha que o faz continuar na jogada, com essa ânsia cada vez maior? Funciona assim mesmo, porque nunca é só cara, ou só coroa. Relaxa, deixa comigo. É só um jogo.
Rita Barreto

