A flor sufoca devagarzinho em seu vaso, dentro do tecido que a envolve na pretensão de lhe “proteger”. O botão macio de algodão se estufa de ternura, ânsias de carinho e desafogo. Penso em libertá-lo… Mas, num ímpeto, espeto-lhe bem no meio um alfinete – um belo alfinete com cabeça de pérola.
Fuga
Estranha essa ausência que não me dói, o coração que já não sinto pulsar dentro do peito. Não me lembro se fugi, mas de repente sinto um receio de escrever algo inadequado, desconcertante – a folha em branco observa-me impaciente, com ânsias de me acusar de impostor.
Jordânia
Não me causava dor nenhuma a visão do horizonte deitado numa linha reta, o chão seco, a vastidão sem fronteiras a ultrapassar. A um olhar desatento podia parecer que se estava em algum lugar fora do mundo, numa lua flutuando no espaço. Mas aquelas pedras conheciam as histórias de todos os passos que já erraram por ali inventando e desfazendo caminhos. Aquelas pedras guardavam a memória de todas as gotas de chuva que um dia moldaram os desígnios e anseios da terra. Aquelas pedras pulsavam o fulgor breve, suicida, das estrelas cadentes que se despedaçavam para tornar em vida o mistério adormecido que era o negrume do céu.
Desapego
Nas mãos, uma taça de vinho tinto. No rádio, uma balada para os corações desapegados. Na memória, a sua despedida entremeada de ilusões desfeitas com graça, canalhices irresistíveis, dúvidas e medos atirados a um vento morno, e o meu sorriso aliviado. Na janela, o mundo inteiro, coalhado de luzes.
Quem sabe…
Se fosse tudo tão fácil. Se as ruas por onde a gente erra tivessem saído das tintas de Matisse. Se os nossos risos alinhavassem a trama grosseira dos dias. Se uma palavra bastasse para arrancar o chumbo que rasgou seu peito. Se o Louis ainda estivesse aqui para permitir os nossos desvarios ingênuos. Se os seus erros não te machucassem tanto. Mas a gente só paga a conta sem olhar nos olhos de quem nos cobra, e vai trabalhar.
08h11 – receita
Um céu azul, um gosto de amêndoa na boca, um ritmo na ponta do sapato, martelando inquieto a calçada, e o teu nome cantado no meio de um riso.
11h18 – explicando
É diferente! Naquela época, eu usava meus pensamentos para fugir só de mim – nunca de você.
Brilhos
Uma névoa densa envolvia a cidade, borrando o negrume do céu, o contorno dos prédios e das ruas. Postes, faróis e placas ardiam oscilantes, e de repente tudo era fogo, e o olhar se via irremediavelmente atraído para a luz. Era uma ilusão, era uma pintura, apenas. Mas nada parecia mais vivo, mais palpitante, e quente, e intenso. A sedução de um sonho perdido desde sempre. A cidade que era e que não era. Mais real, certamente, do que o homem que chorava do outro lado da sala, afogado em desespero, abraçado por outros sem achar amparo no meio daquela beleza assim estática.
00h42 – susto
Os olhos finalmente se fecham sob o peso inútil da tormenta. Dentro deles, presa, a luz roubada à noite que se desintegra num estupor.
Gota d’água
E é o sono, e é a raiva, e é a mágoa, e é a revolta, e é o choro reprimido, e é a frustração, o cansaço a tormenta a dor a fúria, tudo caindo agora, caindo, toneladas de um peso insuportável sobre os ombros, a cabeça. E nada disso provoca reação, porque nunca é a gota d’água.
