Jornalistas x Escritores
"Enfim, temos escritores que foram jornalistas e jornalistas que são escritores. Mas em geral a profissão de jornalista mata o escritor. Já o inverso não acontece." - Cláudio Abramo
"O jornal deveria ter menos tabelas e mais romances." - Marcelo Coelho
"Jornalistas são escritores." - Gay Talese
É o fim, Christina
É o fim
É o fim e a ponte suspensa a balançar
É o fim e a vontade de atravessar
É o fim e a vontade de voltar
É o fim e o medo de voltar
É o fim e o medo de calar
É o fim e a angústia de faltar
É o fim e a saudade de te faltar
É o fim e a saudade de me falar
É o fim e o impulso de andar
É o fim
- e Christina, às vezes…
Sussurro o seu nome como quem pede proteção, nos acessos de medo, nas horas escuras, e antes de dar o passo decisivo. Digo o seu nome como quem mastiga um pedaço do sol, distraída, lembrando a dança e o calor. Entoo o seu nome como quem faz um encantamento, diante da guerra iminente, e se atira ao inevitável com um escudo dentro do peito. Grito o seu nome como quem ergue uma arma, para fazer tombar os inimigos, para que ele ecoe acima do trovejar da batalha. E no instante final, quando tudo estiver perdido, o seu nome selará meus lábios, e me guiará de volta a você.
Outra vida
(Ao lado, obra de Steve McCurry, em O silêncio dos livros)
Não, não estava descontente. Jamais pensara em deixar a casa, as vozes familiares em preces e cânticos, o cheiro do tabaco e da cúrcuma, as histórias da infância, os princípios, os fins de tarde vermelhos, os mistérios, as ruas agitadas, os sorrisos acanhados, os olhos impenetráves, os silêncios. Não lia para fugir de si, como se agarrado a uma hipotética tábua de salvação. A sua vida lhe bastava bem. Lia, na verdade, porque saber que existia outro tipo de vida, em algum outro lugar – a vida de alguém capaz de imaginar outras vidas e outros lugares - lhe dava esperança.
10h06
Quando surgia uma ideia para um novo texto, olhava primeiro o relógio. Não podia escrever antes das 10h06. Nem depois. Tinha de ser às 10h06. E se, ao contrário, os números fatídicos aparecessem no relógio sem que o dia tivesse lhe trazido nada especial, forçava-se a rabiscar umas poucas palavras a esmo. Sabia que, se não escrevesse naquele horário exato, algo terrível aconteceria.
Van Gogh no metrô
A camponesa fugida de um dos quadros de Van Gogh acomodou-se placidamente no único banco vago do trem. Ficou um tempo ali cismando. De repente, sacou uma gaita da sacola de vime em seu colo e tirou um blues impossível, coisa breve. Depois, alheia aos olhares cravados nela, guardou a gaita na sacola e voltou a cismar, até o fim da viagem.
Carona
Lá pelas tantas da noite, o motorista tomou-se de piedade da figura parada pateticamente diante da porta e decidiu dar-lhe uma carona – era o último ônibus da noite, talvez sua última chance de voltar para casa antes do sol nascer. O sujeito até que não parecia mal vestido, apenas amarrotado, como todo boêmio que se preze. Sentou-se naquela saliência onde fica o câmbio e engatou uma conversa. No desenrolar da prosa, tomado de uma ternura súbita e incompreensível, recostou sua cabeça no ombro do motorista e pôs-se a acariciar seu braço. E dizia “você é tão legal, tão gentil. Eu gosto de você”. O outro, fingindo não reparar nas risadas dos passageiros, nos flashes de câmeras que buscavam capturar aquele momento e menos ainda na docilidade do bêbado, ainda tentou dissuadí-lo do vício da bebida, em vão, claro. Quando enfim chegou o momento de desembarcar, o pobre homem mal conseguia enxergar a porta. Paciente, lá se foi o motorista escadas abaixo, para guiá-lo até uns bancos na calçada. Parecia até aliviado, por ter cumprido a missão do dia, mas o boêmio agarrou seu braço uma última vez. “Fica aqui, não me deixa sozinho, não. Você é tão legal, eu gostei tanto de você”, apelou. Foi a gota d’água, o fim de qualquer compaixão que ainda restasse. Desvencilhando-se, o condutor entrou voando no ônibus, com aquela cara de ‘Deus me livre’, e afundou o pé no acelerador. “Aí, hein, ganhou o cara!”, ainda gritou alguém, mas era tarde. O bêbado já tinha virado só mais um personagem, desses cuja única função, aparentemente, é providenciar um motivo qualquer para rir, em noites cansadas assim.
Continuando
E, às vezes, ainda vejo o seu rosto em outras faces, pelas ruas, no metrô - não o seu rosto de agora, o rosto plausível, mas um rosto de muito antes, suspenso no tempo. Nessas horas, quase acredito que você continua ali, e só eu continuei. Só eu continuei…
Lírios
Uma senhora sentada na escada de acesso à estação do metrô: vestido de chita, casaco de lã descombinando, gorro laranja na cabeça, carrinho de feira vazio ao lado. Boca triste. Os olhos, emergindo com dificuldade do tumulto de rugas que lhe atravessam o rosto, contemplam o ramo de lírios amarelos presos em seus dedos.


