Jornalistas x Escritores
"Enfim, temos escritores que foram jornalistas e jornalistas que são escritores. Mas em geral a profissão de jornalista mata o escritor. Já o inverso não acontece." - Cláudio Abramo
"O jornal deveria ter menos tabelas e mais romances." - Marcelo Coelho
"Jornalistas são escritores." - Gay Talese
O olho amarelo daquele prédio caolho vigia a escuridão da noite.
*Sextas-feiras
Todo fim de semana, arrumava umas roupas numa bolsa grande, ia para o Terminal Rodoviário Tietê e pegava um ônibus. Escolhia o destino ali na hora, sem pensar muito. A única regra era não se afastar muito da cidade. Não gostava de lugares muito diferentes, onde se confundisse com os costumes e o sotaque, onde não pudesse encontrar um toque de familiaridade que a deixasse à vontade, como se em casa. O transporte também não podia sair da terra que conhecia tão bem – nunca gostara do mar, avião, então, nem pensar. O que a fazia feliz, nessas viagens, era ver as pessoas indo e chegando na estação, aquela profusão de malas, o ar de novidades, a emoção sem disfarce nas despedidas e nas chegadas, a alegria, e até a tristeza que era de um tipo muito diverso. Era ouvir as conversas dentro do ônibus, as expectativas, as amizades feitas de improviso. Era olhar pela janela a estrada indo, indo, e mesmo assim continuar sempre ali, sob os seus pés. Era ter hora para voltar, e sentir saudades, e contar os minutos, e pensar no que iria contar à família quando chegasse em casa.
*1ª quinta-feira do mês
E, em algum momento da sua vida – quando? – quase sem perceber, deixou de lado a mania de muitos anos. Aquela coisa de escrever histórias, conversas, ideias, canções impossíveis, espalhando as palavras no vapor sobre o espelho, os azulejos e até a porta do banheiro. Tudo para vê-las sumir, devagar, junto com a umidade…
*1ª quarta-feira do mês
Tinha acabado de levar um fora – mais um. Troglodita, ela disse. Boçal. Pediu um ingresso para o cinema, para relaxar, escolheu o primeiro filme em que bateu os olhos. Acabou se identificando com a protagonista, uma famosa estilista que revolucionou a moda e os costumes. Gostou das roupas, do modo como suas criações ganhavam vida. Entusiasmado, descobriu ali, finalmente, a sua vocação.
*Terças-feiras
peaceful place – Sleepyhead_91
Encontrei a rua meio por acaso – uma dessas vielas sem saída que ainda existem aos montes nos bairros mais afastados – e comecei a andar, desapressado. Era cedo, as casas estavam todas fechadas. Nunca havia estado ali, nem havia motivo para isso, mas uma ideia travessa entortou meus lábios num sorriso. De repente, adivinhei os barulhos que se fazia por trás daquelas paredes, a hora em que as primeiras portas e janelas começariam a abrir, a velha curiosa, com cara de maus bofes, que espiaria dali a pouco da sacada ali do fundo. Reconheci, sem jamais conhecer, aquele tempo seco e quente, a poeira balançando no ar tão discreto que era como se nem se movesse. Sabia que aquele degrau junto ao batente da porta era o melhor lugar para se sentar nos dias quentes, e guardava nas costelas a memória do frescor de que as pedras do muro velho se impregnavam. Redesenhei com os olhos as sombras peculiares recortadas contra a luz. Olhei a fiação precária indo de telhado a telhado e ouvi o radinho de pilha, vibrando rouco e grave, à noite, com a emoção do futebol, enquanto alguma cozinha deixava escapar o cheiro do feijão cozinhando na panela. E no alto, bem acima dos fios e de uma que outra lâmpada solta, um punhado de estrelas muito brilhantes, como só nessas vielas, sem saída, a gente vê.
*Segundas-feiras
E ele apareceu, anos depois, como se tivesse apenas se ausentado uns minutos para ir ao banheiro. Sentou na mesa, continuando uma conversa que nem me lembrava que estivesse interrompida. Para não dar bandeira, olhei para ele e sorri, exatamente do jeito que sorria quando costumava ser eu.
*Eventualmente no 5º domingo do mês
Letargia, bares, jogos, blefes, luzes… Um espírito dormindo – com um sorriso abafado -, blue.
*Sábados
Problema? É esta sua mania de aparecer sem avisar, com prazo certo, pra sumir, e me deixar insuportavelmente feliz – a conta-gotas.
*Sextas-feiras
Sorriu com meiguice e respondeu que o amava, mas – fez uma pausa para apagar o cigarro preto de sempre no cinzeiro – havia outro compromisso que a impedia de aceitar o seu pedido e isso ainda a faria sofrer muito. Claro, tudo aquilo não passava de teatro, mera encenação. Dali a minutos fecharia a porta do quarto atrás de si, deixando-o entregue à sorte que o escolhera, e era só. Mas nunca, antes, fora tão fácil dizer aquelas palavras.
*4ª quinta-feira do mês
Quem teve a sorte de presenciar uma das edições do Vocabulário, no ano passado, não vai querer perder o novo encontro de Marcelino Freire, Paulo Scott, Chacal e Marcelo Montenegro, às 20h30 do sábado, no Teatro Eva Herz, dentro do Conjunto Nacional. O quarteto é o responsável pelo evento, que mistura literatura com um quê de teatro, música e diversão garantida. Parte do Vira Cultura – 35 horas de programação cultural oferecidas pela Livraria Cultura – , o sarau deve contar ainda com alguns convidados bem especiais, numa grande celebração.
*4ª quarta-feira do mês
